Introdução
Desenvolvido
pelo estúdio brasileiro Long Hat House e publicado pelo estúdio Raw Fury,
Dandara é um jogo plataforma, metroidvania com um conceito bem interessante.
Diferente de
um platformer comum em que você pode andar para a direita e para a esquerda, em
Dandara você não anda normalmente, mas vai pulando em paredes, chãos e tetos
que possuem uma camada branca de sal para pousar. Toda a movimentação do jogo é
feita nesta sistemática, fazendo com que os trajetos, batalhas, backtracking e dificuldade
algo agradável e satisfatório (claro, levando em conta que eu gosto de jogos
difíceis hahaha).
No jogo,
você controla Dandara, uma personagem que é dita ser a esperança do povo que
sempre viveu com o Sal de livrá-los do povo Eldar. Recebendo orientações de uma
senhora chamada Lazúli e conhecendo diversas pessoas e entidades que ajudam
Dandara a continuar sua aventura, sua função é derrotar os Eldar e libertar o
povo do Sal da opressão que eles sofrem.
Interpretação
Mas, como é
dito no título da postagem, esse post não é uma review / análise sobre o jogo,
mas sim sobre a minha interpretação e minha relação com ela. Então, sem mais
delongas, vamos lá.
A
interpretação que eu tive da história do jogo não difere praticamente em nada
com a interpretação geral do resto das pessoas que tomaram tempo suficiente
para dedicar um tempinho da vida delas à este jogo ótimo e, consequentemente, à
história e cultura brasileira.
Quem foi
Dandara?
Para os mais
astutos, sagazes ou amantes de história, devem ter notado que o nome da
personagem que controlamos no jogo têm o mesmo nome e certas semelhanças
visuais com uma figura importantíssima para a história do Brasil e,
principalmente, para a história da raça afrodescendente: Dandara.
Como dito
anteriormente, na história do Brasil, Dandara foi uma personagem
importantíssima para o fim da escravidão e a libertação dos diversos quilombos
que existiam no país na época. Lutando ao lado de seu marido, Zumbi dos
Palmares, ela foi uma das maiores estrategistas e guerreiras que lutaram no
Quilombo dos Palmares desde o seu início até o seu fim.
Pouco se
sabe da vida dela, mas muitos historiadores concordam que a vida deste símbolo
não só negro como feminino na luta contra a escravidão acabou-se em fevereiro
de 1964, quando ela foi presa e se suicidou com o intuito de não voltar à vida
de escrava.
Vale dizer
que foi confirmado pelos desenvolvedores que a personagem do jogo não é uma
representação da Dandara dos Palmares, mas sim uma personagem diferente baseada
na lutadora da resistência escrava.
O Sal
“O Sal
esteve, um dia, em uma linda paz. Criação e Intenção se mesclavam uma com a
outra virando aprendizado e crescimento. Mas como câncer, uma ideia dourada
cresceu.”
O Sal é
literalmente o lugar que se passa todo o início de Dandara.
Como dito na
frase descritiva acima: O Sal era um lugar pacífico, onde a Criação e a
Intenção se juntavam em aprendizado e crescimento. Mas um dia essa paz foi tomada
por um “câncer”, representado por “uma ideia dourada”, dando a entender que o
tal câncer é o exército Eldariano (os vilões do jogo).
Aqui não tem
muito o que dizer narrativamente, mas sim evidenciar ainda mais o foco na
cultura brasileira com a arquitetura de sobrados próximos à morros, visual
típico e muito utilizado para representar cidades brasileiras como o Rio de
Janeiro e crianças brincando nas ruas de pipa, futebol, etc.
Vila dos
Artistas e a Ditadura
“Nós
estivemos nos escondendo em nossas casas, esperando pelo pior, até que...”
Definitivamente
a Vila dos Artistas é o lugar mais importante para toda a história e
significado de Dandara.
Abrigando
personagens importantes para a história como Jonny B. (referência ao
programador e game designer do jogo, João Brant), Thommaz (referência ao
compositor da trilha sonora do jogo, Thommaz Kauffmann e Tarsila (NPC
referência à pintora Tarsila do Amaral e sua obra mais famosa: o Abaporu); A
Vila dos Artistas é, como dito na frase acima, o refúgio dos artistas e
criadores.
Voltando à
história do Brasil, aqui pulamos da época da escravidão no Brasil para a
Ditadura Brasileira.
Não só pela
falta de necessariedade, mas como pela falta de conhecimento e especialização
da minha parte para com o assunto, não vou me aprofundar nesse tópico. Mas o
que é necessário saber sobre esse período é justamente o porquê desse período
ser rotulado de “ditadura militar”.
O período de
1964 à 1985 foi nomeado como a “ditadura militar brasileira”, intervalo de
tempo em que os militares tomaram posse do poder presidencial do país e impôs
sua autoridade para com o povo brasileiro. Desde conversas em público até
matérias jornalísticas eram vítimas de censura pelo governo, onde tudo que se
tornava público naquela época era totalmente controlado pelos militares; em
suma, grandes meios de expressão de opiniões e informação foram totalmente
tomados pelo governo no ponto de vista de controle de publicação, e, claro, uma
forma de expressão muito caracterizada pela individualidade e liberdade do
autor foi uma das maiores vítimas disso tudo: a arte.
Cantores,
compositores, pintores, escritores, jornalistas, todos que demonstravam sequer
o mínimo de atrito com as atitudes do governo eram censurados. Tais censuras
tomaram diversas formas durante esse período, desde apropriações de materiais à
prisão, exílio e até morte de pessoas que pudessem ser de grande influência
para movimentos contra o governo da época.
E se você
está se perguntando o que isso tudo tem a ver com Dandara, mostra que você não
prestou tanta atenção nos diálogos e ambientes do jogo, pois a censura
artística está explicitamente transposta em todas as partes do jogo.
Desde falas
de personagens como a de Jonny B. dizendo como que ele cria regras, que deixa
muito explícito a malvadeza e tristeza que as regras dos Eldarianos transmitem:
Jonny B. – “Eu crio regras, entende? Mas não
como aquele bastardo do Augustus, não. As minhas são regras brincalhonas,
divertidas. ”
A de Thommaz, que relembra o
período anterior ao domínio dos Eldarianos:
Thommaz – “Esta música é... dos velhos dias
do Sal.”
E o design de personagens como o
Augustus (que é literalmente uma cabeça com um chapéu de general militar) e de
lutas como a luta final que Dandara luta contra o líder dos Eldarianos pela
Televisão, indicando o controle autoritário da mídia e a utilização da mesma
para controle geral.
Embora o Sal esteja sob o domínio
desse povo de forma ditatorial e autoritária, ainda há um raio de esperança para
todo aquele povo, uma esperança que se materializa na forma de uma pessoa, e
que melhor forma de representar um raio de esperança pela liberdade de um povo
do que a utilização de uma personagem baseada em um dos mais importantes
símbolos de libertação do Brasil?
E tudo isso se comprova mais ainda
se analisarmos o que, pelo menos para mim, é o personagem mais importante de
todo o jogo: o Escritor.
O Escritor é um personagem que não
tem exatamente um corpo e não é exatamente uma pessoa, mas sim um ser que
Dandara encontra no decorrer do jogo. Quando encontramos o Escritor, ele está
num estado melancólico e triste, ele não consegue inspiração para escrever algo
e acaba desabafando sobre isso com a Dandara. Ele não deixa explícito, mas é
possível entender que ele não só perdeu a inspiração para escrever algo bom,
mas na verdade ele não consegue escrever algo que seja passível pela análise
governamental em meio à censura. Tanto que, ao terminar o jogo, o Escritor
volta a se sentir melhor e começa a escrever um conto, um Conto de Liberdade.
Mas algo que eu não vi muitos
falando sobre e que, para mim, foi um dos pontos mais intrigantes do jogo todo
foram as “almas” que encontramos de vez em quando no jogo.
Não só a alma que a Dandara deixa
quando morre, mas como outras que encontramos do nada de outras pessoas, ao
serem atingidas por tiros ou pela própria personagem, dá um pouco de “sal” (que
é a xp do jogo) mas também mostra um nome e algo que parece uma causa de morte.
Depois que eu vi sobre essa ideia
de ditadura no jogo, eu fiquei realmente sentido quando parei para pensar
nessas almas. Porque elas representam as pessoas que já foram mortas pelo
regime ditatorial, seja lá qual for o motivo de terem sido mortas, que era
basicamente o que acontecia naquele período. Pessoas morriam, sem saber dos
motivos, razões ou sequer saber da existência daquelas pessoas. Então, quando
pegamos as almas e mostram um nome e o outro texto, estamos basicamente vendo os
restos mortais deixados daquelas pessoas que foram mortas pelo motivo dado:
lesões graves, etc.
Chefe final
e o Raio de esperança.
Eu poderia
ter encerrado no parágrafo anterior, mas eu queria dar um foco especial para a
luta final do jogo.
Quando Dandara
entra na sala para a luta final, ela vai pulando por diversas plataformas
destacadas apenas por um holofote. Ao passar por todas, uma sala grande se
revela com diversos televisores mostrando, inicialmente, não ter sinal, com
aquela velha e conhecida tela de cores de quando a televisão ficava sem sinal
nos períodos anteriores às televisões modernas. Logo após essa tela, revela-se
para o jogador, o chefe final discursando sobre tudo aquilo com Dandara e
então, é revelado para o jogador que o chefe final começa sendo um televisor
que devemos atirar.
Como dito
anteriormente, o chefe final ter como primeira fase ser um televisor fala muito
sobre essa situação ditatorial que o Sal passa. A maior arma para um ditador é
a mídia, em especial dada a época da ditadura militar brasileira, a mídia
televisiva. Imagine só, um meio de comunicação que todos conseguiam ficar o dia
inteiro em frente assistindo coisas quase em tempo real (ao menos, com o menor
atraso de disseminação de informação se comparado às cartas, telegramas, etc),
que maravilha da tecnologia é essa, não?
Tendo isso
em mente, os militares usavam-na para poder controlar o povo. Programas,
músicas e notícias só eram passadas com a autorização do governo, e,
obviamente, os conteúdos antigovernamentais eram censurados. E Dandara mostra
justamente isso: A mídia sendo usada como uma “arma” para cumprir seus
objetivos.
A fase final
desse chefe se dá como um círculo gigante que atira diversas coisas. Neste
ponto não é nada além de uma segunda fase meio bizarra e mais difícil, mas,
nessa parte, vale dizer uma coisa: quando o chefe é derrotado, a última coisa
que devemos fazer para finalizar o chefe é atirar no que parece ser uma junção
de 2 – 3 pessoas num tipo de quimera. Mas vale apontar em como esse ser era
sempre retratado como algo gigante, inalcançável e perfeito; mas no final ele
se tornou algo horrendo, miserável e do mesmo tamanho, senão menor, que nós.
Talvez mostrando que o poder pode enaltecer as pessoas, mas, na sua essência,
elas não são nada mais do que uma pessoa. O interior delas é do mesmo tamanho
que o seu, mas ela pode ser mais bela ou mais horrenda.
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